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    Vera Lucia
    é pedagoga e atua como vice diretora educacional de uma escola pública. Tornou-se uma pessoa com deficiência devido a um acidente na infância. Está na luta por uma inclusão de qualidade e mantém o blog Deficiente CienteGraduação UNIDERP,  curso  Fisioterapia
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O acidente que mudou a minha vida – Parte 2



Quando fui para o quarto do hospital, sentia que minhas forças tinham sido renovadas. Sentia-me bem e acreditava que estava livre de qualquer perigo. Contudo não imaginava o que ainda estava por vir.

Percebi que meu braço e perna direita estavam enfaixados. Tanto a minha perna como o meu braço, necessitavam da troca diária de curativos. Porém, o braço era o que mais me preocupava, pois doía muito. Havia momentos em que achava que iria morrer tal a intensidade da dor - era muito forte e esmagadora.

Toda vez que a enfermeira trocava os curativos, meus gritos ecoavam pelos corredores do hospital. Ainda não sabia que a dor que estava sentindo havia sido causada por uma infecção que havia tomado conta do meu braço, essa infecção é muito conhecida como gangrena.
Gangrena  para quem não sabe, é uma necrose isquêmica falta de suprimento sanguíneo, e consequentemente falta de oxigênio que dá nas extremidades de um braço, mão, perna ou pé, seguido de invasão bacteriana e putrefação. No meu caso, a gangrena atingiu as extremidades do meu braço.

Fiquei sabendo sobre essa infecção através de um médico chamado, Dr. Gilberto, cujo sobrenome não me recordo. Ele foi até o meu quarto para saber a causa de tantos gritos e sofrimento. Até então, nenhum dos enfermeiros e médico que estavam me acompanhando tinham comentando comigo ou com meus pais sobre essa infecção. Não tenho certeza, mas pode ser que a gangrena tenha atingido meu braço por descuido médico. Agora, o que posso afirmar era que a dor piorava a cada dia. Segundo o Dr. Gilberto, se não fosse realizada uma cirurgia para amputação do braço, dentro de vinte e quatro horas eu provavelmente morreria. Dois enfermeiros vieram conversar comigo e tentaram me distrair, no entanto percebia através dos seus olhares, o nervosismo e o sentimento de pena que estavam sentindo. Não deve ter sido fácil para eles dar uma notícia como essa para uma garota de onze anos. Assim que me disseram o que aconteceria na cirurgia a qual eu seria submetida, chorei sem parar... Um sentimento de angústia e tristeza tomou conta de mim. Mas que opção eu tinha, se continuasse com o braço, morreria, se ficasse sem ele, viveria... Fui levada para a sala de cirurgia, e após aproximadamente quatro horas me levaram de volta ao quarto do hospital.

No quarto, ainda anestesiada, pude perceber que meu braço já não estava mais ali. Novamente chorei... Mas não estava tão assustada. Não sei se porque ainda era criança, mas não fiquei tão desesperada. O que passava na minha cabeça naquele momento era que a dor havia terminado e que um dia ainda poderia recuperar o meu braço. Não sei de que forma, mas acreditava naquilo. Fantasia de criança ou não, pensar daquela maneira, ajudou-me a recuperar a coragem e a esperança.

Dois dias após minha cirurgia, tive uma sensação estranha, era como se meu braço ainda estivesse ali. Podia senti-lo, assim como podia sentir minha mão. Podia abrir e fechar a mão, levantar e abaixar o braço. Meus olhos não viam, mas eu podia sentir. "Será que eu estava enlouquecendo", pensei. Não, não estava enlouquecendo. Para esse tipo de sensação, os médicos usam o termo “membro-fantasma”. Segundo eles, a área que representa as sensações que sentia no meu braço estava intacta no cérebro. Para o cérebro é como se o meu braço ainda estivesse ali. Sentia também uma dor ardente, como se fosse uma espécie de choque, só que bem de leve. Essa dor me incomodou durante um bom tempo. De acordo com os médicos, esta "dor do membro fantasma", é produzida pela ausência de impulsos nervosos do membro. Pois, quando um membro é seccionado, produz uma violenta descarga lesional em todos os tipos de fibras. Esta excitação diminui rapidamente e o nervo seccionado torna-se silencioso, até que novas terminações nervosas comecem a crescer. Isto implica que o sistema nervoso central dá conta da falta de influxo normal. Vale ressaltar, que no início, a dor que eu sentia era constante, mas depois foi diminuindo gradativamente.

Em outra oportunidade, contarei mais detalhes sobre o membro e a “dor fantasma”.
Penso que depois de amputada, mesmo após tanto sofrimento, o importante é que mais uma vez consegui sobreviver a tudo aquilo. Nada é mais importante do que a vida!
Querido leitor, viva a vida da melhor maneira que puder!

Vera Garcia

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